Eram 5:45h quando despertou o relógio, o albergue permanecia
em silêncio, penso ter sido o primeiro a levantar-me. Peguei nas minhas coisas
e vim até à sala arrumar tudo na mochila para não incomodar quem ainda estava a
dormir. Lá fora o dia ainda não tinha nascido, e enquanto estava a preparar
tudo não parou de chover. Para o dia de
hoje tínhamos como objetivo chegar a Negreira com paragem prolongada em
Santiago de Compostela e pequeno-almoço em Caldas de Reis.
Foto tirada no arranque, eram 6:40h sensivelmente, começavam
a sair também os primeiros peregrinos a pé.
Cerca de 24km com uma subida mais ingreme pelo meio, era o
que nos separava do pequeno-almoço. Atravessámos a cidade onde ainda tiramos
uma foto ao nascer do sol aquando da passagem sobre o rio Lérez.
A
etapa começava em asfalto, onde fomos passando por alguns peregrinos que já se
tinham feito ao Caminho. Após esta fase inicial maioritariamente em estrada,
começaram os trilhos de terra batida, lindíssimos, e embora encharcados pela
chuva da noite anterior, permitiam deslizar
pelo Caminho sem grandes dificuldades.
Depois
de atingido o pico mais alto da etapa, deixamos os bosques e entramos numa zona
de campo aberto, com alguns canais de água, e igualmente bela. Foi já nessa
zona que chegamos ao
marco que nos indicava faltarem menos de 50km para atingir o nosso primeiro
objectivo.
Mais alguns quilómetros e estávamos em Caldas de Reis para o
merecido pequeno-almoço. E que pequeno-almoço! Ao entrarmos na cidade
perguntamos a um transeunte onde podíamos encontrar uma cafeteria/panaderia, e
lá nos indicou uma bem no centro.
Então para pequeno-almoço ”marcharam” uns croissants
enormes e uns panikes quentinhos, bem regados por um sumo de frutos. Até aqui
tudo bem, a surpresa foi quando me dirigi à funcionária para pedir o belo do
“café solo” e carimbar as credenciais, ao invés do café solo, veio o
tradicional café espanhol (meia de leite em Portugal) acompanhado por uns quebrantes (4 mini croissants, e 1 panike
de chocolate partido em dois) e ainda dois shot’s de sumo de laranja natural, e
tudo isto por 2€…sim 2€ no dia de anterior tinham-nos cobrado 1,70€ por dois
cafés solo e dois mini mini bolinhos (quebrantes).
Reparem na cara do Hernâni a olhar para o petisco que saiu
por surpresa…:D
Arrancamos de Caldas de Reis completamente recuperados e
saciados, depois deste pequeno-almoço divinal. Até Padrón ainda haveríamos de
levar com um valente pedraceiro pela cabeça abaixo, e apanhar um valente susto
com as autênticas armadilhas que há nesta zona do Caminho. Nas descidas fizeram
uns regos com paralelos e alguns deles são perfeitos para o encaixe da roda da
frente e respectiva projeção do bicigrino mais desatento. Numa dessas descidas,
entusiasmado pela velocidade, mesmo no final e após uma curva fechada eis que
aparece um desses regos, e que me obrigou a travar violentamente para perder
velocidade rapidamente provocando um valente pião para atravessar o rego na
diagonal e assim evitar a queda. A partir daqui passei a dar mais uso nas
descidas aos Avid elixir 5 da minha rockrider 8.2.
À entrada em Padrón, fizemos uma paragem técnica para lavar
as bicicletas, pois estávamos a meio da etapa para hoje e as ditas estavam
completamente encharcadas de lama por tudo o que era sitio.
Tentámos carimbar no albergue de Padrón mas não nos
lembrámos que só abria às 13h, era tempo de seguir viagem por Santiago estava a
menos de 25km de distância, e queríamos chegar lá atempo para almoçar.
Nesta fase do percurso a ansiedade era grande e o
desejo de ver surgir as torres da Catedral no campo de visão era enorme, pelo
que mesmo tendo várias subidas, toda a etapa se desenrolou a bom ritmo, ainda
que debaixo de alguma chuva. Na penúltima subida eis que o sol dá um ar da sua
graça, e ao virar da esquina depará-mo-nos com esta paisagem...
Santiago estava mesmo ali ao pé, e apesar do cansaço que as
últimas subidas e os já perto de 60km tinham causado, mais uma vez, de uma
maneira inexplicável, algo mexeu comigo e me renovou as forças, será isto o que
dizem sentir os que já fizeram o Camiño, se é não sei, mas que existe algo
existe.
Mas antes da entrada na Praça do Obradoiro, ainda houve
tempo para “sofrer” na penosa subida em asfalto para chegar à cidade de
Santiago de Compostela.
Á entrada na Praça, o meu corpo irradiava felicidade,
tínhamos conseguido…depois de 3anos a sonhar com este dia, finalmente
aconteceu.
Mais uma vez a chuva resolveu aparecer, mas não nos impediu
de tirar a foto da praxe. Tirada a foto, fomos até à Oficina do Peregrino, e
mais uma surpresa haveria de acontecer.
Ao subir as escadas que dão acesso ao balcão para obter a Compostela,
ouvia no andar cima uma conhecida música do Quim Barreiros (a cabritinha), mal
entrei, entreguei a credencial ao funcionário, que quando reparou que era
Português, foi risada geral, é que quem estava a ouvir as músicas eram outras
funcionárias que se estavam a rir à brava com as perversidades que a música
sugere!!! Quim Barreiros um artista mundialmente famoso!!!
Já com a Compostela, fomos comprar o almoço, como já eram
14h fomos a um supermercado comprar alimentos para fazer umas sandes, e para
comemorar o Hernâni trouxe uns bolinhos de chocolate…maravilha, almoçamos com
vista para a fachada principal da Catedral, não podíamos pedir melhor.
Eram 14:30h sensivelmente, quando nos preparamos para
encarar o Caminho rumo a Negreira, faltavam apenas 22km segundo as informações
que tínhamos obtido, mas seriam um bocadinho mais duros, bem ao estilo dos
trilhos da região norte de Portugal (o nosso quintal :D).
Estava bastante vento e frio, apesar do sol que se fazia
sentir, ao longe o céu tinha um ar ameaçador, com umas nuvens muito carregadas.
Logo que apareceram as primeiras subidas o frio desapareceu e regressou o
encanto das subidas técnicas com calçada romana, troncos e outros desafios que
nós tanto gostamos! Logo nos primeiros quilómetros fora de estrada deu para
perceber que este seria um Caminho muito interessante, devido em grande parte
ao tipo de terreno, paisagens, e principalmente o facto de não ser tão
concorrido ou massificado. A título de exemplo posso dizer que nos 2dias e meio
que fizemos entre Santiago, Muxia e Finisterra, devemos ter encontrado tantos
peregrinos como em apenas 1dia de percurso no Caminho Central Português.
Aqui fica uma imagem dos primeiros trilhos à saída de
Santiago e rumo a Negreira.
Aqui já em Ponte Maceira, a poucos quilómetros de Negreira.
Chegamos
a Negreira eram perto de 17h. Para pernoitar esta noite tínhamos escolhido um
albergue privado a fim de lavar e secar os equipamentos e garantir roupa lavada
para as próximas
duas etapas.
Também foi aqui que cozinhamos pela primeira vez, uma bela
massa com atum, salsichas e azeitona misturados com polpa de tomate, bem
regados por uma Heineken XL para cada um! Menu este que causou curiosidade nos
restantes peregrinos que lá estavam hospedados.
Não sei se pelo cansaço, se pelo silêncio do albergue, ou
mesmo pela holandesa que regou o jantar, foi a noite que ambos dormimos
melhor!!!
Dados do dia:
Distância: 88.25km
Velocidade média: 12.6km/h
Tempo de movimento: 7:01h
Tempo parado: cerca de duas horas (o Gps marca 1:01h, mas
como o desliguei em Santiago julgo não ter contabilizado esse tempo.)